sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Querido Imprevisto!

Lá vem você de novo! Estou ficando cansada, sabe, você deveria se preocupar com meus sentimentos e ser um pouco mais racional. Já está ficando chata essa sua mania de aparecer assim, sem avisar. Eu adoro as suas visitas, faço tudo que posso para te receber bem, mas realmente é complicado, eu tenho que me adaptar a suas freqüentes crises de humor, nunca sei se você vem em paz, com grana, ou se só quer zoar com a minha cara.

Amigo, tá dificil, mas... não é impossivél. Eu só queria um pouco de atenção, me avisa, liga, passa um e-mail, qualquer coisa, mas dá uma pista de como vai ser a sua proxima aparição. Prometo fazer aquela sobremesa que você ama, aquela maminha fatiada que te deixa lambendo os beiços, feliz e com a pançinha cheia. Eu adoro você, acredite, apenas me atropelo toda para te receber bem.

Não é por mal, eu sou meio lenta mesmo, sabe, e fico com aquela sensação de derrota na garganta, aquele aperto no peito me culpando por não estar preparada, quando suas visitas deveriam deixar um rastro de felicidade e um perfume de flores por onde você passa.

Eu sei que o problema é comigo, mas seja caridoso e coopere com essa alma perdida. Você é tão mais inteligente, surpreendente, inesperado e maravilhoso, o que que custa dar uma pista de quando te esperar?

Adoro você, sempre, muito, mas... quando vem numa boa, trazendo alegria. Quando você só quer bagunçar, tô fora!

Portanto eu farei a minha parte e você se educa e, juntos, viveremos mais mil anos de comum acordo.

Abraços previsíveis!

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Nonóia...

Meus queridos, hoje vim aqui acompanhada, trouxe uma grande amiga para apresentar a vocês, podem chama la de Nonóia, apelido carinhoso que lhe dei logo que a conheci, lá no início da carreira.


Ela é super companheira, está sempre por perto, ano após ano, comparece em quase todas as reuniões sociais e familiares de batizado e natal até velório.


É realmente muito solidária, jamais me deixa sozinha. Quando todos ja foram, ela fica um pouquinho mais, ajuda a pôr ordem nas coisas, sempre toma a última gelada, conta a piada da saideira, normalmente a mais engraçada inclusive. Sinto muito que os outros já se retiraram e não podem ouvi-la, pois realmente é nessas horas que ela fica mais falante e sorridente, deve ser efeito da cerveja.


E no dia a dia então, sempre liga, às vezes está meio ocupada mas dá um alô pelo MSN, ou passa um rápido e-mail, mas eu sei que posso contar com ela em qualquer momento, é uma amigona .


Mas, queridos, como ninguém é perfeito, a Nonóia também tem um defeitinho. Pequeno, mas defeitinho. Veja você, hoje a trouxe comigo, mas, enquanto digitava, cadê ela? Saiu dizendo que voltava num minuto, e deve voltar mesmo pois nunca falta com sua palavra, mas aí você ja não vai estar aqui para conhecê-la. E eu, que a conheço bem, sei que a culpa não é dela, mas do defeitinho, ela é muito tímida, não gosta de aparecer, a coitada, prefere me fazer companhia na intimidade mesmo, eu entendo.


Também a culpa foi minha, pensando em ser carinhosa comecei errado, deveria tê-la apresentado com o nome certo não pelo apelido. Fui deselegante com ela e com vocês, desculpem, afinal, todo mundo sabe que os apelidos da infância normalmente intimidam as pessoas.


O nome verdadeiro de minha grande amiga è "Paranóia".


(Nonóia, só para os íntimos)

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Por que mesmo

Por que eu resolvi publicar esses textos?
Porque se a mulher melancia não desestabilizou o universo com o balanço da sua buzanfa, não serão meu textinhos.


Por que você pergunta se ja sabe a resposta?
Porque sou cricri mesmo.


Por que eu não sou mais alta, mais magra, mais bonita?
Porque daí não era eu.


Por que para perguntas é "por que", separado, e para respostas é "porque", tudo junto?
Porque a nossa língua é português.



Por que quando temos uma boa idéia pensamos por que não pensamos nisso antes?
Porque cada coisa tem seu tempo.


Por que quando não gostamos de fazer alguma coisa o tempo passa tão devagar?
Porque não gostamos de fazer o que estamos fazendo.


Por que a semana só tem um fim de semana?
Essa eu queria saber a resposta.


Por que as segunda feiras parecem que duram a semana toda?
Não sei.


Por que você está lendo isso tudo?
Me conta!!!

Colocações!!!

Incrível como algumas colcações poderiam simplesmente sumir do universo. Quer ver?



Passei só para dar uma olhadinha.... (Afe, vai ficar para ver a sessão da tarde.)


"Não quero incomodar, mas..." (Lá vem, já incomodou.)

"Não querendo ser chato..." (Já foi.)


"Você poderia me fazer um favorzinho? Não custa nada." (Custa o gogó da Madonna.)


"Não é fofoca, só vou comentar..." (É fofoca de trancinha, nem precisa desenvolver.)


"Não querendo abusar..." (Aí é o abuso em pessoa.)


"Espero não ter te acordado..." (Acordou sim, no melhor do sono.)

"Nãão que eu esteja me intrometendo, mas..." (Metida pós-graduada.)


"Que bom que você gostou!" (Essa tem certeza que você odiou.)


"Posso dar um palpite??" (Não, não pode.)


"Olha se conselho fosse bom..." (Eu pagava!)


"É só uma lembrancinha..." (Gastou o que não podia.)


"A sua comida está ótima, mas estou sem fome." (Está uma gororoba.)


"Esse vestido me deixa meio gorda." (Você está uma baleia.)


"A minha inveja é daquela branquinha..." (Só matando.)



"A gente precisa se ver, me liga vamos marcar." (Só em 2020.)


"Você é má!" (E você pensa a mesma coisa, só não fala.)

domingo, 14 de setembro de 2008

Amor!

Meu querido,

Tenho observado você e constato tristemente que ja não és mais o mesmo. Sua vasta cabeleira apresenta acentuadas entradas, o colorido de seus cabelos se mesclou a um tom de prata que denuncia claramente que estás ficando coroa.


Mas também ja não era sem tempo, pois desde que o mundo é mundo você passeia tranqüilo pela vida das pessoas e bagunça geral, se não fosse esse seu charme irrestível e a superproteção daquele querubim que te acompanha, acredito que muitos suspeitariam de suas intenções melosas e casamenteiras.


Percebo que o formato de suas orelhas é bem diferente dos demais, o tom de sua voz é capaz de preencher o vazio de várias existências, sua presença é muito prazerosa e realmente ilumina tudo por onde passa. Deve ser o tom exótico de sua pele. No entanto, meu querido, não costumo de falar dessas minhas conclusões porque não quero encher sua bola, pois sei que todos os seres do universo proclamam suas qualidades aos quatro ventos e temo parecer repetitiva.


E, como o tempo passa para todos, e para você também não está sendo diferente, se bem que eu desconfio já há algum tempo que você é imortal, os anos começam a lhe pesar a expressão. Tenho pensado em te sugerir um botox, nada muito agressivo, apenas uma pequena intervenção para suavizar essas rugas de expressão que lhe carregam a fisionomia.

Acredito que voce ficaria ainda mais irresistível, porque, no final das contas, você é mesmo um amor de pessoa.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Isolda!

Na calada da noite, embaixo dos lençóis, Isolda reflete os últimos acontecimentos. Na verdade projeta em sua mente os acontecimentos de quase meio século de vida.

Quando era pequena, surpreendia a todos com sua classe, elegância, paladar apurado, cultura nata, pois era impossível a alguém de sua classe social ter gostos tão refinados. Era sabido por todos que seus pais eram de origem humilde e trabalhavam muito, o pai como enfermeiro, a mãe como secretária, para proporcionar o básico, com raros luxos, para Isolda e seus dois irmãos.

Na escola era destaque nas aulas de literatura, possuía muita facilidade para dominar qualquer idioma, nas artes surpreendia pela compreensão dos traços de artistas que jamais conhecera, tinha dom para pintar, desenhar, costurar. Depois de pedir insistentemente a seus pais para freqüentar uma escola de música, aprendeu piano, violino e flauta.

Sem que se soubesse como, Isolda foi crescendo e se desenvolvendo em tudo que se propunha, as amigas, aquelas invejosas, falavam por trás: para que tanto empenho, se irá casar e lavar panelas a vida toda? As tias comentavam maldosamente: tanto investimento para cuidar dos filhos, ou será que ela pensa que um príncipe um dia virá buscá-la para viver em um castelo, cantando, bordando e recebendo?

E Isolda casou-se, aos 25, com um jovem recém-formado em contabilidade, e juntos tocavam um escritório que prestava serviços a diversas pequenas empresas da cidade. Juntos, também, criaram três filhas, que hoje já estavam adultas, formadas e seguindo seus caminhos.

Naquela manhã de primavera, para sua surpresa, saindo de casa para seus afazeres diários, enquanto se detinha a olhar sua azaléia, que a presenteava com lindas flores de um lilás perfeito, o som de vários carros chamou sua atenção. Olhou sobre o muro e supôs que se tratava de alguém muito importante, provavelmente alguém famoso, devido ao alto número de seguranças vestidos a caráter e à imponência da marca dos automovéis. Imaginou qual vizinho haveria sido sorteado para passar um dia com seu ídolo e, pensando que era uma grande bobagem, voltou a observar sua azaléia.

Nesse instante um senhor vestido ricamente, dirigiu-se a seu portão e perguntou por Miss Isolda. Espantada, disse que era ela mesma. Então ele pediu alguns minutos de sua atenção e perguntou se poderiam tomar um chá juntos.

Isolda, fora do ar, disse que claro, sim senhor, só tenho chá de camomila, tentando rapidamente entender quem poderia ter lhe aprontado aquela, pois deveria ser alguma pegadinha, ou um grande engano. Afinal o que um senhor daquela estirpe, com aquele sotaque britânico, poderia querer?

Na rua a esse momento ja havia grande concentração de curiosos barrados pelos seguranças. Isolda serviu o chá em sua melhor porcelana (brasileira) e, apreensiva, sentou-se tentando imaginar mil coisas, mas sem chegar a conclusão nenhuma rendeu-se a ouvi-lo.

Alfred era seu nome, naturalíssimo de Londres. Aparentava idade bem adiantada, porém era muito lúcido e consciente da missão que lhe fora confiada.

Passada as apresentações Alfred, contou lhe uma história digna de um best seller escrito pelo mais fantasioso escritor. Mas que era completamente, enlouquecedoramente, verdadeira.

Em janeiro de1960, ainda um jovem senhor, Alfred acompanhou sua rainha, pois ele era o servo de maior confiança da rainha da Inglaterra, a uma viagem de férias pela América do Sul. Ela, a rainha, estava entediada com a pompa do seu reino e resolveu fazer a viagem incógnita, com o pretexto de estar descansando na Escócia, de uma grande crise de stress.

Nesta viagem, o destino brincou com a rainha e ela acabou realmente ficando doente: adquiriu uma infecção renal e foi submetida a uma pequena cirurgia às pressas, em um pequeno hospital da região.

Lá conheceu e se apaixonou perdidamente por seu enfermeiro, numa relação digna da família real, com todos os arroubos e segredos permitidos e proibidos que sua majestade tinha direito.

Nesta aventura tresloucada nos confins de um país chamado Brasil, a rainha engravidou do mais pobre plebeu com quem teve contato. E então Isolda foi concebida.

Concebida e escondida, pois a rainha fez um acordo com seu galante apaixonado, já que, por maior que a paixão fosse, seria ainda diminuta perante sua responsabilidade com seus suditos e com seu pais. Iria embora e, alguns meses mais tarde, Alfred traria o fruto de sua travessura, o qual ela faria questão de manter longe da corte, pois que jamais poderia apresentar ao reino a prova viva de sua fraqueza, mas custeando, evidentemente, todas as despesas.

E assim aconteceu.

O tempo passou, os outros filhos da rainha cresceram tbem, a inglaterra seguiu seu curso. O enfermeiro trocou de cidade, de nome, de cor no cabelo - pois ele poderia ser pobre, mas jamais aceitaria q uma mulher sustentasse sua filha - casou-se e teve mais filhos. E a vida correu normalmente.

Enquanto isso, a família real protagonizou os maiores vexames do século, a rainha envelheceu, e Alfred fora incumbido de andar pelo Brasil até encontrar a pobre Isolda, o que ele fez com afinco durante muitos anos.

Isolda tomava goles imensos do chá de camomila, tentando absorver todas aquelas informações, quando a pergunta que não queria calar saiu de seus lábios: por que agora? E, se tudo isso é verdade, o que vcs desejam de mim?

Alfred, então, respondeu que, devido aos acontecimentos sérios na realeza - os herdeiros reais estavam se especializando em superar uns os vexames dos outros - a rainha pensou que, perto dos absurdos de seus filhos, o seu crime era menor e que aquela que era a sua filha mais velha e legítima herdeira do trono deveria ser preparada para assumi-lo.

Neste momento Isolda sorriu, pensando em como seria bom olhar suas vizinhas, amigas e tias zombeteiras e vê-las engolir todos os comentários de uma vida inteira sobre sua postura perante a vida, e começou a sentir o delicioso paladar da vitória.

Foi quando o despertador tocou e ela, conformada, acordou para seus afazeres diários, parando para observar seu pé de azaléias em flor...

Raiva

Senhorita Raiva,

Estou deveras desapontada com você, sei que minhas palavras podem te ferir, mas realmente não estou muito preocupada com seus sentimentos. Você é alta, loira, forte - e, cá para nós, usa cada decote - quer ser a popular, estar em todas, ser destaque por onde anda.

Mas andei te observando e percebi que a verdade é bem diferente, que você com toda essa pose é uma fraude. Descobri que os inúmeros convites que você tem me contado que recebe na verdade são falsos, que a senhorita tem negociado até a alma para estar em eventos que sequer seu nome foi cogitado para comparecer .


Nas reuniões íntimas, então, você aparece com essa cara de arcanjo dizendo que fez um esforço enorme para poder ir, pois estava com a agenda cheia, mas que sua ausência jamais seria perdoada e vai ficando. Como sempre, é a primeira que chega e a última que sai.


As pessoas presentes, amigas, tentam deixar você quietinha no seu canto, dar um gelo, mas você é uma oportunista e na primeira brecha toma conta da conversa, chama a atenção de todos com seu charme, distribui sorrisos melados e olhares suspeitos e eu constato que, em menos de meia hora, antes do terceiro gim tônica, você ja esta com a platéia dominada.


E não venha me dizer que eu sou ciumenta, que o meu mal é a inveja porque o que tenho de altura você tem de pernas, que o problema é o meu cabelo que precisa ser escovado, domado e massacrado enquanto o seu é maravilhosamente cacheado e brilhoso de nascimento, porque a verdade, querida, é que sua presença me incomoda, sua arrogância me impede de aproveitar as festas, o seu discurso egoísta soa como uma análise de terapia, você só se importa com você mesma, me devora a chance de escutar outras pessoas e aprender com a expêriencia alheia.

Sinceramente se você não mudar vou te deixar sozinha e sair à francesa.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

A linda

Corria gelado julho de 1981, a euforia country tomava conta da juventude e de alguns quarentões desavisados.Maria Eugênia, uma doce jovem de cabelos vermelhos e grandes olhos verdes, estava radiante, pois junto com o vento gelado de julho chegava também a melhor época, a das férias escolares, quando os estudantes da capital apareciam de volta em sua cidade para um merecido descanso.

Maria Eugênia fora abençoada com grande beleza, para felicidade sua e inveja mortal das demais, beleza essa que lhe rendeu desde bebê o apelido de Linda, gentileza de seu pai, e assim cresceu conhecida por toda a cidade.

Sua mãe, consciente da beleza da filha, tinha absoluta certeza de que agora os incômodos chegariam a galope, pois Linda completara suas15 primaveras. E nessas férias a moda country, com suas músicas alegres e figurinos em todas as versões possívéis do xadrez, tomava conta de todas as vitrines das lojas e modelitos das jovens. E, como não poderia deixar de ser, de todos os pensamentos de Linda.

Para comemorar a presença dos acadêmicos da capital, organizou-se um baile country no Clube das Orquídeas, o mais badalado do local. Linda rezou a todos os santos de sua cidade e a todos os padroeiros das localidades vizinhas para obter a tão sonhada permissão para participar do grandioso fandango.

Então suas preces foram atendidas, seu pai convenceu sua mãe a acompanhá-la.

O próximo passo de Linda consistiram em se ocupar integralmente em deixar todos os seus afazeres intactos com um desvelo de operária padrão. E, claro, em elaborar minuciosamente toda a sua vestimenta: calça jeans muito justa com bota de camurça, deixando as meias multicoloridas à mostra sob a bota, e um agasalho no xadrez berrante do momento, além de luvas, manta e demais agasalhos com uma combinação criteriosa.

Acreditando que tudo estava nos conformes, ambas se encaminharam para o evento, a mãe rezando intimamente para que aquilo acabasse logo, a filha sonhando que aquilo seria um marco em sua vida e que jamais poderia ser esquecido. Deveras ela estava certa.

Lá chegando, a mãe despachada devidamente na mesas das tias, que não por coincidência também chamavam-se Maria, assim como Maria Eugênia e Maria Aparecida, sua mãe, que fazia questão de manter numerosa a descendência de Marias, pois acreditava que trazer Maria no nome traria sorte. Até sua pequena chácara ostentava o nome Recanto das Marias. Enquanto a mãe se juntava às tias Marias, Linda desfilava pelo salão, expondo sua beleza, à procura de não-sei-o-quê.

Eis que não-sei-o-quê, vestido de cowboy americano, ao som da mais badalada música country do momento, aparece e a convida para dançar. E então, nesse momento, nem sua rara beleza, nem seu figurino montado com todo esmero impedem a destruição do sonho juvenil, pois que a doce Linda jamais havia sequer ensaiado alguns passos do simples samba, quanto mais sonhar que poderia precisaria saber aquela terrivel trança de pernas, e em lugar público com aquele monte de senhoritas invejosas de sua beleza na torcida para que o vexame fosse inesquecível.

Desolada, ela deu uma desculpa das mais esfarrapadas para ele e lentamente voltou ao recanto improvisado das Marias, percebendo que, para brilhar, não importa o figurino ou a estonteante beleza, mas somente o que realmente você sabe; e que cada um vale pelo que realmente é e não pelo que parece.

Recolheu-se, observando as marias feiinhas divertirem-se a noite toda como se fossem verdadeiras cinderelas.

medo!

Querido medo!


Estou cheia de você. Que tal dar um tempo? Você aparece de mansinho como quem não quer nada, na maior cara de pau, com um sorrisinho amarelo de quem quer só fazer uma visitinha, mas eu te conheço de longa data e sei muito bem como é que funciona, quando menos espero você ja está lá instalado, com suas roupas jogadas no meu banheiro, com uma pilha de louça em cima da minha pia, fazendo conjecturas sobre a política financeira, a globalização e o risco que é viver, tentando me por neurótica com suas idéias pessimistas e seu mau gosto trágico.

Então resolvi: ou você vai embora numa boa sem maiores traumas ou vou relatar para todo mundo seu passado e olha que sou boa nisso, lembro muito bem de sua infância, até daquela vez que você pegou piolho e raspou todo o cabelo eu me recordo. Embora você seja como uma pessoa da família, pois impõe sua presença quando menos espero, participando de tudo, criticando tudo e principalmente minando todos os belos momentos com seus comentários preventivos, vou te pedir educadamente, dá um tempo, faz uma viagem, vai conhecer novas pessoas, recicle suas idéias, tente evoluir, porque realmente, querido Medo, você me dá muito medo.

Sem mais, Eu.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

É das crianças o reino dos céus!

- Verduras frescas! verduras frescas!

Assim anunciava bravamente o português na feira ambulante, andando de cá para lá, tentando em vão chamar mais atenção que seus conterrâneos. Todos estavam loucamente entusiasmados pela oportunidade de ganhar algum a mais com o acontecimento da temporada, a chegada do senhor bispo.

Os moradores preparavam-se caprichosamente com a sutil probabilidade de que suas moradas fossem as escolhidas para uma parada rapida de tão imponente autoridade eclesiastica.

Ja ia longe a epóca próspera da exploração de café, que um dia fez daquele povoado ponto de encontro obrigatorio de políticos, religiosos e outros cidadãos célebres. Hoje, porém, a simples presença do senhor bispo para a profissão de São Sebastião, no dia sufocante de 20 de janeiro, justificava toda a euforia que pairava no ar.

Marcela corria tão apressada de um lado a outro muito ansiosa em nada perder, pois intimamente sabia que, quando tudo acabasse e a vida voltasse para a monotonia costumeira, as atenções voltariam para sua pessoinha e a vigilância seria ferrenha como sempre.

- Marcela, vem para dentro!

- Marcela, hora de dormir!

- Marcela, menina má, obedeça sua avó!

Portanto nada mais justo que aproveitasse a liberdade momentânea proporcionada pelo acontecimento importante, o senhor Bispo.

Imaginava a pobre criança o que seria Bispo... Pensava que talvez fosse bispo também quando adulta. Ah, adulta... isso estava tão distante quanto a lua. Mas devia ser bom, adulto não precisava obedecer, não tinha horário para dormir, levantar, comer.

Se bem que adulto cheirava a sabonete alma de flores, o que ela não apreciava muito. Pelo menos era o que sentia nos raros abraços rápidos que recebia de sua distante avó.

Encoberta pelos acontecimentos, observava tudo, escutava tudo e discretamente mexia em tudo também. Foi em uma dessas diligências de cá para lá que escutou Carolina e Lúcia, as duas beatas mais dedicadas da paróquia, conversando, enquanto decoravam o andor de São Sebastião com copos de leite e lírios, comentarem que a avó de Marcela devia aproveitar a presença do bispo e confessar seu pecados.

E "pecados" Marcela sabia muito bem o que era, pois era pauta em quase todas as conversas que tinha com sua avó, assim como inferno, tentação e outros assuntos do gênero eram assunto padrão em sua casa. E imaginava ela que as outras crianças também recebiam essas informações para evitar que perdessem suas almas.

Então, devidamente camuflada embaixo de uma enorme samambaia, que encobria boa parte da lateral da casa das beatas, acompanhou o desenrolar do assunto: os pecados de sua avó!

E soube com riqueza de detalhes como veio ao mundo, oito anos antes, na passagem do último bispo pela sua cidade. Soube também que sua avó, como conhecia desde sempre, teria passado os dez meses seguintes servindo à casa paroquial na capital. Como a pobre criança sequer sabia o significado da palavra bispo, mau entendeu o contexto da história, porém assimilou que sua avó havia deixado a pasmaceira daquele lugar por um bom tempo e que quando retornou, sabe-se lá como, trouxe-a para casa.

Fez mentalmente suas contas: bispo, alguém muito importante; possibilidade de ir à capital; e ainda poderia trocar Ana Banana, sua boneca, por uma criança de verdade. Oras se avó, que sabia tudo, conseguiu, porque ela, que era tão parecida com sua avó, não poderia?

Sorrateiramente abandonou a samambaia e correu para casa tomar seu banho e se arrumar para a procissão de São Sebastião. O santo haveria de colaborar com ela , afinal suas orações eastavam em dia.

Tudo pronto, a procissão correndo dentro dos conformes, com muitas crianças (as mais boazinhas vestidas de anjo), as beatas com suas melhores roupas e as piores intenções, e Marcela na ponta dos pés para tudo ver e nada perder. Quando finalmente retornaram à porta da igreja, os ânimos estavam bastante alterados, pois cada morador sentia que deveria ser o anfitrião do senhor bispo naquela noite, todos se julgando os melhores merecedores de tão nobre visita, porque, afinal, cada um havia gastado por conta, concluindo que sua casa seria a escolhida.

O pobre bispo, ja meio sem eira nem beira, consciente de que qualquer decisão que tomasse, teria uma familia amiga e dezenas de familias descontentes, o que poderia lhe render sérios problemas em Roma. Suspirando profundamente, decidiu intimamente que o problema deveria ser resolvido por São Sebastião, que o havia colocado em tamanha confusão, num dia terrível de verão, que, Deus o perdoasse, estava mais quente que o inferno. Convidando seus fiéis a fazerem uma oração e entregando o problema a quem competia, aguardava fielmente que dos céus caísse a solução.

Neste fatídico momento, a rebelde Marcela esgueirou-se por entre as pernas suadas e cabeludas da multidão, aproximou-se do bispo e solenemente proferiu:

- Senhor bispo eu quero que a minha casa seja a escolhida para o senhor ficar esta noite!

O bispo, louvou a São Sebastião, pois quem poderia ir contra a vontade de uma inocente criança? Estava tudo resolvido... Graças a Deus! Afinal, é das crianças o reino dos céus.

- Pois não, minha querida, se você gostaria de receber esse servo do Senhor em sua casa, eu irei. Mas me diga, meu anjo, por que você gostaria que este senhor fosse a sua casa, acaso gostaria que rezassemos juntos após o jantar?

- Não, senhor Bispo, gostaria que dormisse em minha casa, para me ensinar como trazer uma criança da casa paroquial para ser minha neta, como minha avó fez.

Não soube noticias da avó.

A cidade!

Existe uma cidade, no interior do Brasil, onde se é possível passear por ruas tranquilas e observar pessoas, pássaros, cachorros com pedigree e outros bem viralatas, porém cada um com seus encantos.

O viajante, bom observador, contempla o vai-e-vem preguiçoso do lugar, se perguntando porque aquela gente se mantém tão conformada em viver no interior das montanhas, sem o menor interesse de se aventurar por mundos distantes ou descobrir novas culturas, e tenta adivinhar o que passa naqueles corações tão tranquilos.

Observa a obesa senhora que sem culpa assa o pão de milho no forno de barro e limpa caprichosamente a testa no pano de prato que mantém no pescoço suado e, na mesma velocidade, alivia a fome, comendo feliz as migalhas da broa que esfria na tigela ao lado.

Na casa em frente, a mãe repreende com energia o menino que tenta esconder a fita arrancada às pressas da trança da bonita filha da vizinha. Claro que a intenção dele era apenas chamar atenção da menina, jamais de sua mãe.

Lucio, o observador, calcula mentalmente quanto tempo, dinheiro e conversa dispensou para convencer sua bela Ana a fazer essa viagem, segundo ela a esse fim de mundo. E, feliz, sorri para si mesmo, concluindo que para ser feliz basta apenas o calor forte de um forno de barro, algumas migalhas de broa ou a sutil preocupação de uma mãe em fazer de um menino travesso um pequeno lorde.