quarta-feira, 10 de setembro de 2008

A linda

Corria gelado julho de 1981, a euforia country tomava conta da juventude e de alguns quarentões desavisados.Maria Eugênia, uma doce jovem de cabelos vermelhos e grandes olhos verdes, estava radiante, pois junto com o vento gelado de julho chegava também a melhor época, a das férias escolares, quando os estudantes da capital apareciam de volta em sua cidade para um merecido descanso.

Maria Eugênia fora abençoada com grande beleza, para felicidade sua e inveja mortal das demais, beleza essa que lhe rendeu desde bebê o apelido de Linda, gentileza de seu pai, e assim cresceu conhecida por toda a cidade.

Sua mãe, consciente da beleza da filha, tinha absoluta certeza de que agora os incômodos chegariam a galope, pois Linda completara suas15 primaveras. E nessas férias a moda country, com suas músicas alegres e figurinos em todas as versões possívéis do xadrez, tomava conta de todas as vitrines das lojas e modelitos das jovens. E, como não poderia deixar de ser, de todos os pensamentos de Linda.

Para comemorar a presença dos acadêmicos da capital, organizou-se um baile country no Clube das Orquídeas, o mais badalado do local. Linda rezou a todos os santos de sua cidade e a todos os padroeiros das localidades vizinhas para obter a tão sonhada permissão para participar do grandioso fandango.

Então suas preces foram atendidas, seu pai convenceu sua mãe a acompanhá-la.

O próximo passo de Linda consistiram em se ocupar integralmente em deixar todos os seus afazeres intactos com um desvelo de operária padrão. E, claro, em elaborar minuciosamente toda a sua vestimenta: calça jeans muito justa com bota de camurça, deixando as meias multicoloridas à mostra sob a bota, e um agasalho no xadrez berrante do momento, além de luvas, manta e demais agasalhos com uma combinação criteriosa.

Acreditando que tudo estava nos conformes, ambas se encaminharam para o evento, a mãe rezando intimamente para que aquilo acabasse logo, a filha sonhando que aquilo seria um marco em sua vida e que jamais poderia ser esquecido. Deveras ela estava certa.

Lá chegando, a mãe despachada devidamente na mesas das tias, que não por coincidência também chamavam-se Maria, assim como Maria Eugênia e Maria Aparecida, sua mãe, que fazia questão de manter numerosa a descendência de Marias, pois acreditava que trazer Maria no nome traria sorte. Até sua pequena chácara ostentava o nome Recanto das Marias. Enquanto a mãe se juntava às tias Marias, Linda desfilava pelo salão, expondo sua beleza, à procura de não-sei-o-quê.

Eis que não-sei-o-quê, vestido de cowboy americano, ao som da mais badalada música country do momento, aparece e a convida para dançar. E então, nesse momento, nem sua rara beleza, nem seu figurino montado com todo esmero impedem a destruição do sonho juvenil, pois que a doce Linda jamais havia sequer ensaiado alguns passos do simples samba, quanto mais sonhar que poderia precisaria saber aquela terrivel trança de pernas, e em lugar público com aquele monte de senhoritas invejosas de sua beleza na torcida para que o vexame fosse inesquecível.

Desolada, ela deu uma desculpa das mais esfarrapadas para ele e lentamente voltou ao recanto improvisado das Marias, percebendo que, para brilhar, não importa o figurino ou a estonteante beleza, mas somente o que realmente você sabe; e que cada um vale pelo que realmente é e não pelo que parece.

Recolheu-se, observando as marias feiinhas divertirem-se a noite toda como se fossem verdadeiras cinderelas.

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