Na calada da noite, embaixo dos lençóis, Isolda reflete os últimos acontecimentos. Na verdade projeta em sua mente os acontecimentos de quase meio século de vida.
Quando era pequena, surpreendia a todos com sua classe, elegância, paladar apurado, cultura nata, pois era impossível a alguém de sua classe social ter gostos tão refinados. Era sabido por todos que seus pais eram de origem humilde e trabalhavam muito, o pai como enfermeiro, a mãe como secretária, para proporcionar o básico, com raros luxos, para Isolda e seus dois irmãos.
Na escola era destaque nas aulas de literatura, possuía muita facilidade para dominar qualquer idioma, nas artes surpreendia pela compreensão dos traços de artistas que jamais conhecera, tinha dom para pintar, desenhar, costurar. Depois de pedir insistentemente a seus pais para freqüentar uma escola de música, aprendeu piano, violino e flauta.
Sem que se soubesse como, Isolda foi crescendo e se desenvolvendo em tudo que se propunha, as amigas, aquelas invejosas, falavam por trás: para que tanto empenho, se irá casar e lavar panelas a vida toda? As tias comentavam maldosamente: tanto investimento para cuidar dos filhos, ou será que ela pensa que um príncipe um dia virá buscá-la para viver em um castelo, cantando, bordando e recebendo?
E Isolda casou-se, aos 25, com um jovem recém-formado em contabilidade, e juntos tocavam um escritório que prestava serviços a diversas pequenas empresas da cidade. Juntos, também, criaram três filhas, que hoje já estavam adultas, formadas e seguindo seus caminhos.
Naquela manhã de primavera, para sua surpresa, saindo de casa para seus afazeres diários, enquanto se detinha a olhar sua azaléia, que a presenteava com lindas flores de um lilás perfeito, o som de vários carros chamou sua atenção. Olhou sobre o muro e supôs que se tratava de alguém muito importante, provavelmente alguém famoso, devido ao alto número de seguranças vestidos a caráter e à imponência da marca dos automovéis. Imaginou qual vizinho haveria sido sorteado para passar um dia com seu ídolo e, pensando que era uma grande bobagem, voltou a observar sua azaléia.
Nesse instante um senhor vestido ricamente, dirigiu-se a seu portão e perguntou por Miss Isolda. Espantada, disse que era ela mesma. Então ele pediu alguns minutos de sua atenção e perguntou se poderiam tomar um chá juntos.
Isolda, fora do ar, disse que claro, sim senhor, só tenho chá de camomila, tentando rapidamente entender quem poderia ter lhe aprontado aquela, pois deveria ser alguma pegadinha, ou um grande engano. Afinal o que um senhor daquela estirpe, com aquele sotaque britânico, poderia querer?
Na rua a esse momento ja havia grande concentração de curiosos barrados pelos seguranças. Isolda serviu o chá em sua melhor porcelana (brasileira) e, apreensiva, sentou-se tentando imaginar mil coisas, mas sem chegar a conclusão nenhuma rendeu-se a ouvi-lo.
Alfred era seu nome, naturalíssimo de Londres. Aparentava idade bem adiantada, porém era muito lúcido e consciente da missão que lhe fora confiada.
Passada as apresentações Alfred, contou lhe uma história digna de um best seller escrito pelo mais fantasioso escritor. Mas que era completamente, enlouquecedoramente, verdadeira.
Em janeiro de1960, ainda um jovem senhor, Alfred acompanhou sua rainha, pois ele era o servo de maior confiança da rainha da Inglaterra, a uma viagem de férias pela América do Sul. Ela, a rainha, estava entediada com a pompa do seu reino e resolveu fazer a viagem incógnita, com o pretexto de estar descansando na Escócia, de uma grande crise de stress.
Nesta viagem, o destino brincou com a rainha e ela acabou realmente ficando doente: adquiriu uma infecção renal e foi submetida a uma pequena cirurgia às pressas, em um pequeno hospital da região.
Lá conheceu e se apaixonou perdidamente por seu enfermeiro, numa relação digna da família real, com todos os arroubos e segredos permitidos e proibidos que sua majestade tinha direito.
Nesta aventura tresloucada nos confins de um país chamado Brasil, a rainha engravidou do mais pobre plebeu com quem teve contato. E então Isolda foi concebida.
Concebida e escondida, pois a rainha fez um acordo com seu galante apaixonado, já que, por maior que a paixão fosse, seria ainda diminuta perante sua responsabilidade com seus suditos e com seu pais. Iria embora e, alguns meses mais tarde, Alfred traria o fruto de sua travessura, o qual ela faria questão de manter longe da corte, pois que jamais poderia apresentar ao reino a prova viva de sua fraqueza, mas custeando, evidentemente, todas as despesas.
E assim aconteceu.
O tempo passou, os outros filhos da rainha cresceram tbem, a inglaterra seguiu seu curso. O enfermeiro trocou de cidade, de nome, de cor no cabelo - pois ele poderia ser pobre, mas jamais aceitaria q uma mulher sustentasse sua filha - casou-se e teve mais filhos. E a vida correu normalmente.
Enquanto isso, a família real protagonizou os maiores vexames do século, a rainha envelheceu, e Alfred fora incumbido de andar pelo Brasil até encontrar a pobre Isolda, o que ele fez com afinco durante muitos anos.
Isolda tomava goles imensos do chá de camomila, tentando absorver todas aquelas informações, quando a pergunta que não queria calar saiu de seus lábios: por que agora? E, se tudo isso é verdade, o que vcs desejam de mim?
Alfred, então, respondeu que, devido aos acontecimentos sérios na realeza - os herdeiros reais estavam se especializando em superar uns os vexames dos outros - a rainha pensou que, perto dos absurdos de seus filhos, o seu crime era menor e que aquela que era a sua filha mais velha e legítima herdeira do trono deveria ser preparada para assumi-lo.
Neste momento Isolda sorriu, pensando em como seria bom olhar suas vizinhas, amigas e tias zombeteiras e vê-las engolir todos os comentários de uma vida inteira sobre sua postura perante a vida, e começou a sentir o delicioso paladar da vitória.
Foi quando o despertador tocou e ela, conformada, acordou para seus afazeres diários, parando para observar seu pé de azaléias em flor...
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